Outro dia, em um encontro na Casa do Coração Sagrado(1) em Dublin, um apelo muito poderoso e apaixonado foi feito pelo Arcebispo de Dublin pedindo contribuições para fornecer cuidados e formação adequados para as crianças católicas que, por conta da pobreza e displicência dos seus pais, frequentemente caem nas garras dos "proselitistas" que fazem da sua miséria uma arma na guerra contra sua religião. Nós não nos propomos agora, nem em nenhuma ocasião, a entrar nas disputas das religiões rivais, mas pensamos que a ocasião merece pelo menos uma breve nota da nossa parte, ajudando a ilustrar a verdade da nossa contenda, que a questão social, ou a questão do pão e da manteiga, é a raiz de tudo, e até que ela seja resolvida nenhuma outra questão de importância fundamental pode ser resolvida a não ser de maneira incompleta e insatisfatória.
Qual é a posição na qual o apelo por contribuições para levar adiante o trabalho de caridade da Casa do Coração Sagrado está baseada? Que devido a condição empobrecida das grandes massas do povo a fé católica das crianças está a mercê daqueles missionários e outros agentes protestantes que vêm com contribuições caritativas para os pais e fazem da sua caridade um meio para obter o controle da educação e da própria criança. Aqui então temos que o argumento claramente diz que os diversos perigos dos quais estamos sendo solenemente alertados provêm da POBREZA. Seguindo nesse raciocínio, pelo nosso ponto de vista de meros leigos, ficamos inclinados a dizer que o primeiro ataque no qual o Arcebispo devia dirigir as forças da sua eloquência, e a atenção do mundo em geral, é à pobreza e às instituições que a criam. Se você destruir as instituições sociais que criam a pobreza, se você elevar a classe trabalhadora da sua posição atual de dependência econômica, e assim garantindo a todos os homens e mulheres o suficiente de coisas boas na vida em troca de uma quantidade moderada de trabalho, então o trabalho insidioso do "sopeiro"(2) está acabado e todas as denominações religiosas precisarão se manter ou progredir através somente das suas verdades inerentes.
Mas em hora alguma em todas as exortações apaixonadas dos nossos líderes clericais nós encontramos esse ponto sequer notado; em vez disso nós devemos apelar por contribuições para salvar as crianças católicas das tentações dos "proselitistas"; e como as ditas tentações geralmente tomam a forma de comida e roupas, a fornecer comida, roupas, e se necessário, abrigo pelas fontes católicas. Em tudo isso não se questiona se deveriam ser consideradas quais as medidas que deveriam ser tomadas para abolir a pobreza que tanto degrada os trabalhadores para eles estarem dispostos a traficar suas crianças de tal maneira.
E até que esta questão seja abordada com todos os esforços, a Casa do Coração Sagrado, e todas as instituições do tipo, não terá praticamente nenhum sucesso em combater tal degradação. O lugar das crianças resgatadas hoje será preenchido amanhã pelas crianças de outros pais atirados no abismo da vida nos barracos e da miséria pelo trabalho incessante do nosso injusto sistema social. Neste jornal, ou nesse partido, não somos aliados, ou opositores, de qualquer crença ou Igreja particular - buscando a emancipação da classe trabalhadora da demoníaca trindade do Aluguel, Juros e Lucro nós precisamos do auxílio dos homens de todas e de nenhuma religião - mas consideramos ser nosso dever apontar que se os palestrantes da Casa do Coração Sagrado em Drumcondra(3) desejassem sinceramente salvar as crianças, então eles encontrariam no Programa Municipal do Partido Socialista Republicano uma plataforma, aquela da Manutenção Gratuita das Crianças, a qual, se aplicada, preveniria efetivamente toda a miséria desesperada da qual os incidentes degradantes como aqueles denunciados provêm.
Mas é sempre mais agradável a uma certa classe de mentes bicar as consequências do que atacar corajosamente a raiz do mal; isso, e a impopularidade certa como recompensa de um partido político que, desprezando métodos baratos de ganhar simpatia, em vez de reclamar sobre os sofrimentos dos pobres, os conclama a se rebelar contra as instituições opressivas que a causam, explica porque nossos homens públicos em geral são cautelosos para tratar de reformas, por mais práticas que sejam, que apelam para a humanidade em vez de para a riqueza.
Mas tais confissões de timidez unidas com uma confissão da natureza degradante da sociedade capitalista, assim como aquela que os clérigos reunidos nos apresentaram na última segunda-feira, só tende a confirmar a fé do Republicano Socialista no curso de ação consistente que coloca todas as suas esperanças nos braços direitos e nas mentes claras dos despossuídos - a classe trabalhadora.