Dicionário político

Ramiz Alia

Retrato Ramiz Alia

(1925-2011): Ramiz Alia nasceu em 18 de outubro de 1925, em uma família pobre da cidade de Shkodër. Concluiu seus estudos superiores em 1954 na União Soviética. Abraçou as ideias comunistas ainda estudante do ginásio de Tirana e participou ativamente do Movimento Antifascista de Libertação Nacional (LANÇ) como membro da União da Juventude Antifascista da Albânia (BRASH) e da União da Juventude Comunista da Albânia (RKSH) desde a sua fundação.

No início de 1943, tornou-se membro do então Partido Comunista da Albânia (PKSH). Destacou-se como um corajoso combatente militante na Guerra de Libertação Nacional Antifascista, razão pela qual o PKSH lhe confiou importantes responsabilidades na direção da RKSH. Aos 19 anos, recebeu tarefas de elevada responsabilidade política e militar: integrou a direção da 7ª Brigada de Assalto (1944), atuou na 2ª Divisão de Assalto e foi Comissário Político do Partido exemplar da 5ª Divisão de Assalto (1944), que, por ordem do Comandante-Geral do Exército de Libertação Nacional da Albânia (LANÇ), camarada Enver Hoxha, combateu o fascismo tanto na libertação dos territórios albaneses sob a antiga Iugoslávia quanto na própria libertação da Iugoslávia, cumprindo com firmeza o princípio internacionalista do PKSH. No 1º Congresso da Juventude Antifascista, realizado em Helmës (1944), foi eleito membro do Secretariado da Juventude e, posteriormente, no Congresso de Unificação da Juventude (1949), tornou-se Primeiro-Secretário do Comitê Central da União da Juventude do Trabalho da Albânia (BRPSH).

Após a libertação do país, Ramiz Alia foi incumbido, por sua dedicação incansável, suas capacidades organizativas e suas qualidades como quadro dirigente, de funções de alta responsabilidade partidária, estatal e social. Foi membro do Comitê Central do Partido do Trabalho da Albânia desde o 1º Congresso (1948); Ministro da Educação e da Cultura (1955–1958); candidato ao Birô Político do Comitê Central no 3º Congresso (1956) e, desde o 4º Congresso (1961), membro efetivo do Birô Político e Secretário do Comitê Central; foi Presidente da Assembleia Popular da República Popular Socialista da Albânia (1982); Comandante-Geral das Forças Armadas e Presidente do Conselho de Defesa; vice-presidente da Frente Democrática (FD) da Albânia (1967); e deputado da Assembleia Popular desde a segunda legislatura (1950).

Em 1985, tornou-se Primeiro-Secretário do Comitê Central do Partido do Trabalho da Albânia (PPSH) com a então morte do camarada Enver Hoxha. Ramiz Alia foi uma destacada personalidade política e social da nação albanesa, um estadista que, em todas as circunstâncias, combateu e trabalhou com lealdade e firmeza exemplares pelo fortalecimento do Partido e do Poder Popular, pela construção do socialismo, pela educação e formação dos comunistas e dos trabalhadores sob a ideologia marxista-leninista, bem como pelo desenvolvimento da educação, da cultura, da literatura, das artes e da ciência da pátria albanesa.

Ao lado do camarada Enver Hoxha, lutou com coerência e espírito internacionalista pela defesa do marxismo-leninismo e da linha do PPSH contra o revisionismo iugoslavo, soviético e chinês. Nesses momentos de complexidade política, provou diversas vezes ser um quadro político de princípios morais revolucionários e que desenvolveu as posições do Partido com elevado critério e rigor ideológico com a luta de classes na arena nacional e internacional.

Ramiz Alia foi um combatente decidido na defesa da liberdade e da independência da Albânia, na salvaguarda das conquistas da revolução contra o imperialismo, o social-imperialismo e contra seus agentes internos e externos. Defendeu e aplicou com habilidade e maturidade a política externa revolucionária, de princípios e em defesa da paz, do Partido do Trabalho da Albânia e do Estado albanês.

Com a onda contrarrevolucionária anticomunista que varreu o Leste Europeu entre 1989 e 1991, no contexto da crise geral do socialismo europeu e do colapso do bloco socialista, a Albânia enfrentou uma situação de isolamento econômico, pressão internacional e instabilidade interna. Nesse cenário adverso, Ramiz Alia e a direção do PPSH buscaram preservar, por meio de reformas graduais, o caráter socialista do Estado albanês, admitindo o pluralismo político e promovendo concessões econômicas e religiosas que, na avaliação de seus críticos, abriram espaço para o fortalecimento de forças nacionalistas e abertamente anticomunistas, entre elas setores vinculados ao antigo movimento Balli Kombëtar.

Diante da crescente pressão interna e externa, principalmente com o fuzilamento de Nicolae Ceaușescu na Romênia, o PPSH, sob a direção de Ramiz Alia, capitulou e optou por evitar a ampliação da luta de classes na Albânia, declarou buscar impedir um “banho de sangue”, em vez de aprofundar a luta até as últimas consequências em defesa do poder político, cometendo um erro histórico capital. A introdução do multipartidarismo pluralista e as eleições de março de 1991, o Partido do Trabalho ganha e obteve maioria parlamentar, porém, essa vitória não fora suficiente para conter o avanço da oposição fascista organizada em torno do nascente Partido Democrata (PD). Em 1992, após nova rodada eleitoral, depois de Ramiz Alia renunciar do poder diante de uma greve geral universitária violenta, essa força política assumiu o controle do Estado, com Sali Berisha na presidência, consolidando a transição para um novo regime de orientação fascista-neoliberal e pró-ocidental, com clara interferência e orientação da família Bush nos Estados Unidos.

Em declarações posteriores, Ramiz Alia avaliou de forma autocrítica o processo de transição, afirmando que “a assinatura do decreto sobre o pluralismo político na Albânia foi um desastre. Não tive nenhum prazer em passar aquela política, porque foi uma derrota para todos nós. Se me perguntarem, direi que minha vida foi marcada pela derrota. Eu lutei toda a minha vida pelo socialismo, lutei por uma sociedade sem classes, por uma sociedade comunista e fracassei”.

O 10º Congresso do PPSH, já corroído pela ofensiva revisionista-liberal, marcou formalmente o encerramento do período socialista, com a mudança de nome para Partido Socialista (PS) e a redefinição programática da organização. Em meio ao enfraquecimento do poder estatal e às transformações que atingiam toda a região balcânica, — em particular, a destruição da Iugoslávia pela OTAN — abriu-se uma ofensiva política e jurídica contra antigos dirigentes do período socialista.

Com espírito de revanche, nos anos subsequentes, o novo governo ballista-fascista implementou um amplo programa de privatizações e liberalização econômica, que destruiu todas as forças produtivas então desenvolvidas pela época socialista. Ramiz Alia foi julgado e condenado, em 1994, a pena de prisão sob acusações de abuso de poder e outras imputações, no contexto de processos dirigidos contra antigos dirigentes do Estado socialista.

A política econômica adotada pelos fascistas na primeira metade da década de 1990 contribuiu para o agravamento da crise social. A proliferação de esquemas financeiros de pirâmide fraudulentos, tolerados e com ampla participação pelas autoridades da época em favor da lavagem de dinheiro e do tráfico de drogas e armas, culminou no colapso das chamadas “pirâmides financeiras” em 1997, desencadeando um levante armado generalizado e o colapso temporário das estruturas estatais neoliberais. Nesse contexto turbulento, antigos dirigentes foram libertados, — incluindo Ramiz Alia — e o país ingressou em nova fase de reconfiguração política.

Nos anos finais de sua vida, Ramiz Alia dedicou-se à redação de memórias e reflexões políticas, nas quais defendeu aspectos centrais da experiência socialista albanesa sob a direção de Enver Hoxha, ao mesmo tempo em que reconheceu “contradições e limites do processo histórico” vivido, fazendo também capitulações ideológicas referente a sua desilusão marcada pela derrota de sua vida. Além disso, também adotou um discurso de mea culpa em relação ao socialismo em diversos aspectos. Sua trajetória final foi marcada por uma avaliação crítica do período de transição e pela reafirmação de seu compromisso histórico com o ideal socialista.

Ramiz Alia, um dos personagens mais trágicos da Albânia, em 7 de outubro de 2011, aos 86 anos, faleceu no hospital do Sanatório, em Tirana, Ramiz Alia, um dos mais destacados dirigentes do Partido do Trabalho da Albânia e do Estado albanês, companheiro de luta e colaborador próximo do camarada Enver Hoxha, tanto durante a gloriosa Guerra Antifascista de Libertação Nacional quanto na época da construção do socialismo.