Reunião da Direção Central da Liga dos Comunistas

Karl Marx/Friedrich Engels

15 de setembro de 1850


Fonte para a tradução: Karl Marx, Friedrich Engels, Werke, Band 8, Dietz Verlag Berlin, 1988.

Tradução: Camilo da Rosa Simões.

HTML: João Batalha.

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Presentes: Marx, Engels, Schramm, Pfänder, Bauer, Eccarius, Schapper, Willich, Lehmann.

Fränkel está escusado.

Como esta é uma reunião extraordinária, a ata da última reunião não está aqui e, portanto, não será lida.

Marx: A reunião de sexta-feira não pôde ocorrer devido à colisão [de horário] com a reunião da comissão da comunidade(1). Visto que Willich convocou uma assembleia distrital, cuja legalidade não examino, a reunião deve ocorrer hoje. Trago a seguinte proposta, que se subdivide em três artigos:

1. A direção central é transferida de Londres para Colônia e vai para a direção daquele distrito assim que a reunião da direção central de hoje for encerrada. Essa decisão será comunicada aos membros da liga em Paris, Bélgica e Suíça. A nova direção central anunciará a decisão à Alemanha.

Motivos: Fui contra a proposta de Schapper de uma direção distrital alemã geral em Colônia para não perturbar a unidade da autoridade central. Isso se retira, na nossa proposta. Contudo, há uma série de novas fundamentações. A minoria da direção central está em aberta rebelião contra a maioria, tanto na moção de censura na última reunião quanto na presente convocação distrital para assembleia geral, assim como dentro da associação e entre os refugiados(2). Portanto, uma direção central aqui é impossível. A unidade da D.C. não pode mais ser mantida, ela teria que rachar-se e duas ligas seriam formadas. Mas como os interesses do partido têm prevalência, proponho portanto esta solução.

2. Os estatutos até agora existentes da Liga ficam revogados. A nova direção central fica encarregada de fazer novos estatutos.

Motivos: Os estatutos do Congresso de 1847 foram alterados pela D.C. de Londres em 1848. Novamente, as circunstâncias mudaram. Os estatutos mais recentes de Londres enfraqueceram os artigos principais dos estatutos [originais]. Ambos estatutos estão em vigor aqui e ali; em alguns lugares não há estatuto algum, ou os há feitos por conta própria – completa anarquia dentro da Liga, portanto. Além disso, os estatutos mais recentes foram publicizados e, assim sendo, não podem mais servir. Minha proposta, portanto, essencialmente indica o estabelecimento de estatutos efetivos para substituir a atual ausência de estatutos(3).

3. Serão formados dois distritos em Londres, absolutamente sem relação um com o outro e unidos apenas por sua filiação à Liga e por se corresponderem com a mesma direção central.

Motivos: É precisamente pela unidade da Liga que a formação desses dois distritos se faz necessária. Além dos antagonismos pessoais, surgiram também diferenças quanto a princípios, inclusive dentro da própria comunidade. No último debate sobre a questão “a posição do proletariado alemão na próxima revolução”, membros da minoria dentro da D.C. expressaram pontos de vista que contradizem diretamente a penúltima circular(4), e até mesmo o “Manifesto [comunista]”. Em lugar da perspectiva universal do “Manifesto”, adentrou uma perspectiva nacional alemã, lisonjeando o sentimento nacional dos artesãos [Handwerker] alemães. Em vez da perspectiva materialista do “Manifesto”, é a idealista que se destaca. Em vez de condições materiais, a vontade foi enfatizada como principal elemento da revolução. Enquanto dizemos aos trabalhadores: vocês terão que enfrentar 15, 20, 50 anos de guerra civil para mudar as condições, para que vocês se capacitem a si próprios para governar, em vez disso tem sido dito: devemos chegar imediatamente ao poder, ou podemos nos deitar e dormir. Assim como a palavra “povo” é usada pelos democratas como simples bordão, o mesmo acontece agora com a palavra “proletariado”. Para fazer valer esse bordão, seria preciso declarar todos os pequeno-burgueses como proletários, o que representaria de facto a pequena burguesia, e não o proletariado. Em lugar do verdadeiro desenvolvimento revolucionário, o que se deveria fazer é estabelecer o bordão da revolução. Esse debate finalmente revelou as diferenças quanto a princípios que formavam o pano de fundo dessas disputas pessoais, e agora é hora de intervir. Essas mesmas diferenças foram tomadas como grito de guerra pelas duas frações, e vários membros da Liga rotularam os defensores do “Manifesto” como reacionários, tentando assim torná-los impopulares, o que entretanto não os preocupa, pois não buscam popularidade. A maioria teria, portanto, o direito de dissolver o distrito de Londres e expulsar os membros da minoria por serem contrários aos princípios da Liga. Não apresento essa proposta porque ela apenas provocaria um alvoroço inútil, e porque essas pessoas são, em suas próprias convicções, comunistas, embora os pontos de vista que expressam agora sejam anticomunistas e possam, no máximo, ser chamadas de social-democratas. É evidente, porém, que seria uma pura e prejudicial perda de tempo permanecermos juntos. Schapper falou com frequência sobre separação; bem, eu estou levando a sério a separação. Acredito ter encontrado o caminho onde nos separamos, sem explodir o partido.

Declaro que, de minha parte, não desejo mais do que doze pessoas(5) no nosso distrito, o mínimo possível, e deixo à minoria, de bom grado, todo o coletivo. Se esta proposta for aceita, então obviamente não poderemos permanecer na comunidade; eu e a maioria iremos nos retirar da comunidade da G[rea]t Windmill Str[ee]t(6). Afinal, não se trata de um relacionamento hostil entre ambas as frações, mas, pelo contrário, da eliminação da tensão e, portanto, de todos os relacionamentos. Permanecemos juntos na Liga e no partido, mas em um relacionamento puramente prejudicial não permanecemos.

Schapper: Assim como na França o proletariado se separa da Montagne(7) e da “Presse(8), aqui também as pessoas que representam o partido em princípio se separam daquelas que organizam dentro do proletariado. Sou pela realocação da direção central, e também pela alteração dos estatutos. Os de Colônia conhecem as condições na Alemanha. Também acredito que a nova revolução produzirá pessoas que se autogerirão melhor do que todos aqueles que alcançaram renome em 1848. Quanto aos rachas sobre princípios, foi Eccarius que propôs a questão que deu ocasião a este debate. Eu expressei o ponto de vista contestado aqui porque em geral sou um entusiasta nesse assunto. A questão é se de início nós mesmos decapitaremos ou se seremos decapitados. Na França, os trabalhadores terão a vez e assim sendo, nós, na Alemanha. Se não fosse esse o caso, eu iria mesmo deitar e dormir, e então poderia ter uma posição material diferente. Se for a nossa vez, podemos tomar medidas tais, que garantam o domínio do proletariado. Sou fanático por essa visão. Mas a direção central quis o oposto. Se vocês não querem mais nada conosco, ótimo – então nos separamos agora. Na próxima revolução certamente serei guilhotinado, mas irei para a Alemanha. Se vocês querem formar dois distritos, ótimo – então a Liga deixará de existir, e nos encontraremos novamente na Alemanha, e talvez possamos unir forças mais uma vez. Eu sou amigo pessoal de Marx, mas se vocês querem a separação, ótimo, então iremos sozinhos e vocês irão sozinhos. Então, duas Ligas deveriam ser estabelecidas. Uma para aqueles que trabalham com a pena, a outra para aqueles que trabalham de outras maneiras. Não acredito que a burguesia chegará ao poder na Alemanha, e sou um entusiasta fanático a esse respeito; se não fosse, não daria um tostão furado por toda essa história. Mas dois distritos aqui em Londres, duas comunidades, dois comitês de refugiados – então vamos preferir logo também duas Ligas e a separação completa.

Marx: Schapper entendeu mal minha proposta. Se a proposta for aceita, nos separamos, os dois distritos se separam e os indivíduos não têm mais nenhuma relação entre si. Eles permanecem, no entanto, na mesma Liga e sob a mesma direção central. Vocês irão até mesmo manter a grande massa de membros da Liga. Quanto a sacrifícios pessoais, fiz tantos quanto qualquer outro, mas pela classe, não por indivíduos. Quanto a entusiasmo, é necessário pouco entusiasmo para pertencer a um partido que se acredita que chegará ao poder. Eu sempre desafiei a opinião momentânea do proletariado. Estamos nos dedicando a um partido que, para o seu próprio bem, ainda não pode chegar ao poder. Se o proletariado chegasse ao poder, não implementaria medidas diretamente proletárias, mas sim pequeno-burguesas. Nosso partido só poderá chegar ao governo quando as condições permitirem que suas visões sejam implementadas. Louis Blanc oferece o melhor exemplo do que acontece quando se chega ao poder cedo demais(9). Aliás, na França não são apenas os proletários que chegam ao poder, mas com eles também os camponeses e os pequeno-burgueses, e terão de implementar não as suas próprias medidas, mas as medidas deles. A Comuna de Paris(10) prova que não é preciso estar no governo para realizar algo. Aliás, por que nenhum dos outros membros da minoria, que na época aprovaram unanimemente a circular, se manifesta, nomeadamente o cidadão Willich? A Liga, nós não podemos dividir e não queremos dividir, mas apenas o distrito de Londres, dividir em dois distritos.

Eccarius: Eu levantei a questão e, de fato, tinha a intenção de trazer o assunto à fala. Quanto à opinião de Schapper, expliquei na comunidade por que a considero uma ilusão e por que não acredito que nosso partido possa chegar ao poder imediatamente na próxima revol[ução]. Nosso partido será então mais importante nos clubes do que no governo.

O cidadão Lehmann se retira sem dizer uma palavra. Igualmente, o cidadão Willich.

Artigo 1 aprovado por todos. Schapper se abstém.

Artigo 2 aprovado por todos. Schapper se abstém.

Artigo 3 aprovado, igualmente. Schapper se abstém.

Schapper declara seu protesto contra todos nós: Agora estamos completamente divididos. Tenho meus conhecidos e amigos em Colônia, que seguem mais a mim do que a vocês.

Marx: Decidimos nosso assunto de acordo com os estatutos, e as resoluções da D.C. são válidas.

Após a leitura da ata, Marx e Schapper declararam que não haviam escrito a Colônia sobre este assunto.

É perguntado a Schapper se ele tem alguma objeção à ata. Ele declara que não tem objeções, pois considera qualquer objeção inútil.

Eccarius propõe que a ata seja assinada por todos. Aprovado. Schapper declara que não irá assinar.

Assim foi, em Londres, 15 de setembro de 1850
Lido em voz alta, aprovado e assinado

ass. K. Marx, presidente da Direção Central
ass. K. Schramm
ass. F. Engels, secretário
ass. J. G. Eccarius
ass. Henry Bauer
ass. K. Pfänder